volta home | LuaC

 

    Texto | Histórico Corporativo..... /. .volta.. /

 

   

 

 

TEXTO FASCÍCULO 1
1924 - 1930
UNIBANCO
75 ANOS DE HISTÓRIA EM 75 DIAS

ÍNDICE
O Brasil da década de 20, o café e o desenvolvimento da capital paulista, a vida no interior de Minas e São Paulo, o comércio e os bancos, o pioneiro João Moreira Salles e a Casa Moreira Salles em Poços de Caldas, a crise de 29, a revolução de 30, o início da Era Vargas.


ABRE/CAPA

Em seus 75 anos de existência, a história do Unibanco sempre foi uma história de talento. Talento das pessoas que, com seu esforço e dedicação, ajudaram a transformar a pequena casa bancária fundada em Poços de Caldas, em 1924, na grande instituição financeira de hoje. Milhares foram os que participaram e ainda participam dessa grande construção e variados os seus talentos. Mas entre todos, três foram os pioneiros: João Moreira Salles, Pedro di Perna e Walther Moreira Salles.
De meu avô João, o fundador do banco, guardo a memória de um homem terno e compassivo, extremamente gentil, de que todos gostavam, funcionários e clientes. Foi ele que estabeleceu as bases sólidas do banco e semeou sua irresistível vocação para o crescimento.
De Pedro di Perna, sócio de meu avô desde 1940, fica-me a lembrança de alguém dedicado e solidário, como um parente próximo (era o nosso “tio” Pedro), homem de um talento inato e extraordinário para o negócio bancário. A segurança com que sabia lidar com o crédito fez escola entre os gerentes, desde a primeira geração de nossos colaboradores.
De meu pai Walther veio-me a consciência da enorme responsabilidade que é conduzir um grande empreendimento financeiro. E dos compromissos éticos que essa responsabilidade significa. Foi ele que ampliou os horizontes do banco, conferindo-lhe suas amplas dimensões de hoje. Dele recebo, a cada dia, conselho e exemplo.
É justo que aqui também seja lembrado o nome de Roberto Konder Bornhausen, que continuou o trabalho dos pioneiros com firmeza e lealdade, dedicando sua vida à grandeza do Unibanco. A ele, sob sua orientação segura, devo meu aprendizado prático da atividade financeira.
Muitos são os nomes que poderiam ser aqui alinhados. Porque a história do Unibanco, como já disse, é uma história de pessoas e talentos. E, lado a lado com a história do Unibanco e das suas pessoas, vamos contar a história de um País em busca do desenvolvimento e da modernização. E, assim, rememorar nossos 75 anos de existência.

Pedro Moreira Salles


TEXTO MIOLO FASCÍCULO 1

Os Ares de 20
A moeda era o Real no Brasil do início da década de 20. Os famosos “Mil-Réis”. O café também era moeda em um país de tradição agrícola: movia a economia e gerava o enriquecimento à sombra de suas plantações. Do sul de Minas Gerais até o interior de São Paulo, as lavouras de café avançavam carregando o desenvolvimento. Com o final da I Guerra Mundial as exportações aumentavam e o produto alcançava bons preços no mercado internacional.
A capital de São Paulo respirava esses ares de prosperidade. Crescia e atraía as famílias dos ricos plantadores e exportadores de café. As casas de comércio sofisticavam-se. Os automóveis substituíam, definitivamente, as últimas carruagens. O apito das fábricas, nos bairros operários, era um chamado insistente à industrialização. Os primeiros ônibus urbanos disputavam com os bondes elétricos a preferência dos usuários. Arquitetos europeus eram “importados” para construírem sonhos. Os teatros e cinemas lotavam suas sessões com homens e mulheres cuidadosamente trajados a rigor. Dançava-se freneticamente o “charleston” nos pisos lustrosos dos grandes salões de baile. E os bancos passavam a receber, cada vez mais, novos clientes.
Em 1920, o Brasil contava poucas instituições bancárias, com atividades pulverizadas e localizadas nos grandes centros. O serviço de compensação de cheques, regulamentado em 1921, ainda era uma novidade. Aliás, novidade era uma palavra de especial significado naqueles dias. A Semana de Arte Moderna de 1922 traduzia, nas obras de seus artistas, o desejo de modernização de todo o País. O Brasil estava sedento pelo novo, principalmente o interior agrícola centro-sul, economicamente muito próximo e geograficamente ainda distante dos progressos que se verificavam na São Paulo da garoa.
O grande investimento das companhias de trens na ampliação das ferrovias, para o escoamento da produção agropecuária, abriu mais do que caminhos. Seguindo a linha dos trilhos iam os “cometas” - caixeiros-viajantes -, responsáveis em grande parte pelo abastecimento comercial do interior. Percorriam as fazendas e as casas de comércio instaladas nas cidades da região, carregando produtos e notícias do desenvolvimento que se verificava no centro da economia cafeeira - a paulista São Paulo -, e no centro político do país - a carioca Rio de Janeiro -, sede do governo federal. “Esta é a mais nova moda da Capital, trazida diretamente de Paris, meu senhor”... “O mais fino serviço de porcelana inglesa, minha senhora”... Descarregavam mercadorias e recolhiam moedas, convertidas em cheques nos “correspondentes bancários” das pequenas cidades do interior.
Os “correspondentes bancários” nada mais eram do que casas comerciais que, na base da confiança, aceitavam depósitos, pagavam cheques e recebiam letras, sempre que solicitados. Na falta de agências locais, era natural que as casas de comércio mais importantes do interior se desdobrassem na atividade bancária. Além dos caixeiros-viajantes, também os comerciantes faziam a ponte entre os fazendeiros e pequenos sitiantes - ilhados em suas propriedades - e os bens de consumo, adquiridos dos grandes centros urbanos. Alimentos beneficiados, querosene, enxadas, pregos, tecidos, panelas, arados, calçados, selas, munição, roupas, ferramentas. Do básico à extravagância, ou se esperava a visita dos “cometas”, ou se visitava a casa comercial da cidade mais próxima. “Se o cliente precisava de um artigo mais difícil de encontrar, só o comerciante tinha os contatos necessários para fazer a encomenda. Só ele tinha idéia do preço, de quanto tempo levaria para o artigo chegar, da forma como fazer o pagamento. Numa emergência, só ele dispunha de fundos para adiantar o numerário”, descreve o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, no livro “História do Unibanco”, editado pelo Instituto Moreira Salles, em 1994.
É neste universo das casas comerciais e dos serviços de correspondência bancária, das lavouras de café de Minas e São Paulo, e dos trilhos da Companhia Mogiana de Trens, que a história do Unibanco começa a ser contada. Ela vai cruzar o tempo de um homem e sua família, seus empreendimentos, a cidade turística onde se encontravam e a sociedade cafeeira da década de 20.

A Cidade-Balneário e a Casa Moreira Salles & Cia
Poços de Caldas. A cidade mineira já era um balneário famoso no início do século. Os efeitos medicinais de suas águas quentes e sulfurosas eram alardeados nos quatro cantos do País. Com a inauguração do Teatro-Cassino Polytheama, do Grande Hotel e de um novo Balneário, em 1918, definitivamente, Poços de Caldas entrava na moda. Durante as temporadas, que iam de fevereiro a abril e de setembro a novembro, Poços quase dobrava sua população de 10 mil habitantes. O costume era permanecer na cidade durante 21 dias, tempo considerado ideal para se obter os benefícios dos banhos terapêuticos. Por lá desfilavam as grandes figuras da República, os homens das letras e das artes, a sociedade cafeeira, toda a elite brasileira.
Chegava-se a Poços por meio dos trens da Mogiana, uma companhia particular fundada em Campinas por ricos fazendeiros de café. Poços era ponto final de um dos ramais da Mogiana, o que a transformou no pólo aglutinador da cafeicultura da região. O armazenamento e escoamento da produção eram outras atividades de peso na economia do lugar. Com o progresso urbano e o crescimento do turismo, muitos negociantes de outras regiões foram atraídos pela cidade. Instalava-se um comércio variado, reunindo desde produtos de primeira necessidade até os mais finos artigos importados.
João Moreira Salles foi um desses empresários. Chegou a Poços de Caldas em 1918. No ano seguinte inaugurava a Casa Moreira Salles & Cia, um ‘magazin’, como se usava dizer na época, de comércio mais refinado e diversificado que, paralelamente, desenvolvia os serviços de correspondente bancário, representando treze bancos. O departamento bancário da Casa Moreira Salles contava pouco mais de duzentos clientes para os quais realizava operações de cobrança, sobretudo, mas também de saques, depósitos, descontos de títulos, câmbio, pagamentos e transferências. Nos meses de temporada, o movimento, como se pode facilmente imaginar, duplicava.
Nesta época, mais precisamente em 1921, o governo brasileiro tomava uma série de providências na tentativa de normatizar o setor bancário. A intenção era de fiscalizar, disciplinar e organizar o funcionamento das instituições financeiras. Por isso, as casas que, como a Moreira Salles, tinham na atividade financeira apenas um de seus departamentos, sendo essencialmente uma casa comercial, precisariam de uma carta patente para continuar operando.
A Casa Moreira Salles requereu-a - e a obteve. Por meio da carta patente nº 272 foi autorizada a abertura da Seção Bancária da Casa Moreira Salles. Com o tempo essa seção se transformaria em Casa Bancária e, depois, no Banco Moreira Salles, origem de um dos maiores complexos financeiros do país: o Unibanco. Portanto, a data de autorização da carta patente - 27 de setembro de 1924 - é considerada como seu marco fundador, a partir do qual se conta a história oficial dos 75 anos de existência do Unibanco.

O “Seu Salles”
João Moreira Salles. O “Seu Salles”, como era conhecido, antes de chegar a Poços de Caldas, aos 30 anos de idade, tinha descoberto, ainda menino, sua vocação para o comércio. Nascido na mineira Cambuí, de uma família de pequenos agricultores, bem cedo foi encarregado de tarefa comum aos garotos de sua idade: levava e trazia produtos da fazenda para a cidade. Ativo e gentil, em pouco tempo foi convidado para trabalhar na principal loja da cidade, a Casa Ideal, de propriedade de seu padrinho, o italiano Adriano Colli. Era uma grande oportunidade para aprender um novo ofício e juntar economias. Na loja, atendia à freguesia e executava as pequenas tarefas do dia-a-dia do comércio. Atrás do balcão traçou os planos que o levariam a estagiar em uma casa comercial de São Paulo, pólo de atração central para a região sul-mineira da época. E foi. Recomendado pelo padrinho, João Salles apresentou-se a Casa Araújo Costa & Cia para ser aceito como aprendiz. Recebia casa e comida, e trabalhava duro, como convinha a um aspirante ao comércio. Não satisfeito, matriculou-se no curso noturno da Escola Prática de Comércio de São Paulo, que mais tarde se chamaria Escola de Comércio Álvares Penteado. Ao se formar, aos vinte anos de idade, achou que era hora de voltar para casa. E voltou, agora para assumir a Casa Ideal, que passava, por sua influência, a ser também abastecida por produtos fornecidos em consignação pela Casa Araújo Costa, de São Paulo.
Mas, em breve, Cambuí e a Casa Ideal tornavam-se pequenas demais para Salles. Após o casamento e o nascimento de seu primeiro filho - Walther, em 1912 -, João Moreira Salles partiu para Guaranésia, outra cidade do sul das Minas Gerais. No estabelecimento comercial que fundou, registrou-se uma inovação: paralelamente à atividade de comércio, a loja do “Seu Salles” oferecia serviços de correspondência bancária. Esta estréia, como já se sabe, marcaria a sua vida. Ao mesmo tempo, outra atividade importante mereceria seu interesse - os negócios com o café -, produto que passou a comprar e revender, abrindo para tal, diversos armazéns nas cidades da região.
“O mesmo que se disse a respeito do natural movimento que metamorfoseava o comerciante do interior em banqueiro pode-se dizer do movimento que o transformava em comerciante de café. Era comum as lojas como a de João Moreira Salles entregarem suas mercadorias aos fazendeiros contra pagamento futuro. Ou seja, quando fossem vendidas as safras. Não raro, o pagamento era feito com o próprio café, num sistema de troca. Isso fez com que muitos comerciantes acabassem se encaminhando para o mercado de café”, relata o jornalista Pompeu de Toledo, em publicação citada anteriormente.
Antes de seguir para Poços, Salles estabeleceu-se ainda, por um tempo, em Mococa, no estado de São Paulo. Armarinho, secos e molhados, departamento bancário e armazéns de café. Desde então, Salles nunca mais se ateve exclusivamente à um único negócio. Empreendedor, teve plantação de uvas, fumo e criação de gado. Foi revendedor dos automóveis Oldsmobile e concessionário das redes telefônicas em sua implantação na região de Poços de Caldas. Também se arriscou com madeiras, no Paraná e Santa Catarina... Mas estas são outras histórias. Um mês após receber a carta patente para a seção bancária da Casa Moreira Salles, ele já partia para novos desafios: o destino era Santos e o interesse era a exportação de café. A Casa Moreira Salles seria administrada à distância, com sua presença esporádica nas temporadas de férias. Na maior parte do tempo, no entanto, eram os sócios que levavam os negócios. Mais tarde, no início da década de 30, seu filho Walther Moreira Salles assumiria o comando, ao qual somar-se-ia, em 1940, a presença de Pedro di Perna. Até lá, a Casa Moreira Salles continuava ganhando espaços, no lugar certo e na hora certa, com o talento das cabeças certas, como era a de João Moreira Salles, um lançador de boas sementes.

A Crise de 1929 e a Revolução de 30
Nas rádios, o samba-choro Carinhoso, de Pixinguinha, tocava sem parar. Também sem parar, subia e descia o eólio, verdadeira mania mundial, bastante simbólica dos tempos que se seguiriam. O ano de 1929 trouxe a Grande Depressão, iniciada nos EUA, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, e que se estendeu por toda a economia mundial. Os preços do café despencaram. A saca, que custava duzentos mil-réis, em agosto, passou a vinte e um mil-réis, em janeiro do ano seguinte. A crise atingiu duramente toda a economia brasileira. Fortunas se desfizeram de um dia para o outro. Fábricas foram fechadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. As finanças públicas entraram em colapso. O desemprego era alto e afetava as novas classes sociais organizadas pela urbanização. Eram necessários novos rumos e uma nova mentalidade: buscar a industrialização do País, substituindo importações. O ciclo da supremacia do café chegava ao fim, apesar dos esforços do presidente Washington Luis em estabilizar as dívidas e promover o aumento da produção.
Em 1930, uma revolução derrubava o governo. Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil, em caráter provisório, mas com amplos poderes. Todas as instituições legislativas foram abolidas e os governadores dos Estados foram depostos. Vargas, desagradando a muitos, tomou medidas que modernizaram as relações capital-trabalho, investiram na indústria de base, facilitaram a importação de insumos e dificultaram a de produtos de consumo que pudessem concorrer com a tímida manufatura nacional. O setor bancário não poderia deixar de seguir o mesmo rumo: apoiar a industrialização. A Seção Bancária da Casa Moreira Salles, na festiva Poços de Caldas, também sofreria mudanças acompanhando o movimento de nacionalização do sistema bancário. Passado o vendaval e superada a crise, os negócios voltavam a crescer. O Brasil disputava a primeira Copa do Mundo de Futebol, no Uruguai, e o mundo descobria Plutão, o planeta mais distante do sistema solar...

No próximo fascículo, os anos de 1931 a 1935. O jovem Walther Moreira Salles. A Casa Moreira Salles na Poços de Caldas da Era Vargas. A elevação à Casa Bancária. A Revolução Constitucionalista de 32, em São Paulo. Os efeitos da promulgação da Constituição de 34. As tentativas de derrubada de Getúlio, em 1935.


©LuaC/Unibanco

     
     
   
 

v5
©1995 2011 | LuaC Comunicação e Arte Ltda | são paulo - brasil
5511 2914-1561 | 6061-4259